Milagre

"Olhar a orquídea é ter tempo para a vida, e reconhecer nela o milagre que nos permite caminhar todos os dias", Quaresma..

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Instante

Neste instante
Em que vejo o horizonte
E sua luz de eternidade
Abraço amável a vida
Dada a mim como paradoxo
Ou como graça divina,
Nada muito ortodoxo.

Neste instante
Canto a certeza do hoje
Vivendo com coragem
As esperanças graúdas
Que virão firmes, azuladas
Em constelações noturnas
Com suas luzes infindas, de vida
Que mudam a cada piscar
Dos olhos da inocência.

Neste instante...
A vida floresce
E a música entoa
Seu canto de liberdade
Para as asas tuas
Que desejam voar.
E planando bem alto
Nos céus das verdades
Da justiça sem algema
Encontro o sentido
Do meu poema.

Emerson Quaresma

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Devaneio

.: Goreth imaginou que poderia voar. Era seu sonho, seu devaneio desde criança tola, sempre vigiada pela mãe, pela avó, e até mesmo pela baba.

Aos 18, com a liberdade concedida, naquela noite foi até o térreo do prédio onde morava. Braços bem abertos, ela sentiu frio nas entranhas e desistiu.


Microconto
Emerson Quaresma

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Cândida

Os passos de Cândida cintilavam os olhos parvos de Augusto. Ela tomava o salão como seu, sem perder o ritmo. Mas, mantinha uma postura ambígua.
      Cabeça baixa e distante de si, Augusto não acreditava que aquela figura, esbelta, alta, e de olhos castanhos lhe estendia a mão, sedutora.
      Se viu confuso com a atitude daquela que, aos seus olhos, era a dona da noite no piso amadeirado do salão do Atlético Rio Negro Clube.
      Pensou duas vezes num curto espaço de tempo, e esboçou uma reação de ultraje, pois poderia ser firula das mais grosseiras da parte de Cândida.
      Deu tempo de desistir e desistiu da atitude. Apanhou a mão da dama sob a meia luz, e seguiu por entre os outros pares daquela nave musical.
      Nada muito atlético, tampouco atraente frente a figuras mais encorpadas que estavam naquele lugar, Augusto tentava saber o porquê de ele ser o eleito.
      Apaixonado, trocou poucas palavras com a moça e arriscou ainda gravar o número do telefone dela, que encorajada seguia se divertindo.
      Cinco músicas após o convite, ela pediu uma pausa para ir ao toalete, onde retocaria baton e maquiagem gastas com os beijos trocados com o parceiro.
      Já não era sem tempo. Um tanto cansado ele cedeu aos apelos singelos da amada. Sua confiança e estima estava em alta naquele instante.
      E no lugar onde tinham terminado o último passo fincou os pés. Diáfano para o mundo, copo de caipirinha à mão não viu a noite terminar.
      Também não viu mais Cândida, que desapareceu. Não sabia que ela procurava um par apenas para ter a certeza de que não dançava desengonçada, sozinha.

Miniconto
Emerson Quaresma

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Juventude, políticas públicas virtuais...


          
Poucos políticos apresentam propostas de Políticas Públicas voltadas para a JUVENTUDE. Uma massa de mais de 700 mil no Amazonas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Trabalhar com a JUVENTUDE é difícil, do ponto de vista da falta de estrutura para mobilizar, articular e fazer acontecer.

           É claro que, mobilizar JUVENTUDE parece ser mais difícil, por parecer que faltam motivos para isso. Na verdade, não faltam motivos, esses têm de sobra. Na verdade, precisamos fazer a mobilização no sentido de acordar a JUVENTUDE de um sono imposto pelo sistema.

          Pareço até está entrando num discurso de quem viveu a ditadura, mas isso é nada mais que a necessidade de mostrar que vivemos hoje uma ditadura diferente, velada. A sociedade ainda vive os resquícios do sistema de curral, tendo seus olhares voltados apenas para o que lhe mostram.

          A JUVENTUDE que poderia ajudar a mudar essa realidade está também preocupada com o seu primeiro emprego ou como se vestir para a balada da noite. Discutir políticas públicas parece ser perda de tempo num mundo de pão e circo, e de preocupações do dia seguinte.

         Mas, não parar para dizer o que pensa e o que precisa nesse mundo de cão, é não se permitir um novo passo na construção de um dia bom. O período de campanha eleitoral parece ser uma temporada para estratégias rasteiras e de um bando de infelizes dizendo “votem em mim”.

          Penso que a JUVENTUDE pode fazer DIFERENTE. Olhar essa estação como uma oportunidade de lutar por um momento novo, bom, sem muita utopia. Participar do processo é a nossa oportunidade de COMPROMISSAR os senhores políticos com as questões que nos preocupam.

         Vejo que não temos mais motivos de ir às ruas e promover quebra-quebra por um mundo melhor. Temos hoje instrumentos para brigar por isso. O momento é de buscar o DIÁLOGO com quem pode resolver. E se não tem interesse, o descartamos. Se não tem recurso, o ajudamos a encontrar.

         O mais importante é participar do processo como protagonista, e não somente como massa de manobra, de pessoas descompromissadas. É claro que, a luta não acaba no aperto de mão. Ela continua na cobrança, no monitoramento e na vigilância para que a luta valha a pena.

         Penso que devemos caminhar nesse sentido, e desta forma garantirmos o direito de participar da construção das políticas públicas, para que elas sejam reais, e não apenas promessas virtuais.


pensamento nasceu no twitter

terça-feira, 13 de julho de 2010

Espelho

.: Aquela imagem intrigava Carlos. Os traços não eram mais os mesmos de antigamente. O sorriso era mais triste, mesmo sendo aquele o mais alegres dos seus.


Lembrou aos 90, frente ao grande espelho da velha cômoda de mogno original, que os seus 27 passaram há 63, velozes como a vida curta.

Microconto
Emerson Quaresma

domingo, 11 de julho de 2010

Elegia a seleção brasileira

(1º de julho de 2006 - Copa da Alemanha)

Tentei fazer poesia desse meu dia
Mas fui surpreendido pela decepção.
Foi-se a esperança desse instante, a alegria.
No lugar, tristeza, angústia em explosão
Constantemente doendo na minha alma.
Vivi junto com milhões de torcedores essa estação,
Lastimosa, e o contrário do sonho já perdido.

Tentei fazer um poema rimado e perfeito
Todavia, perfeita e complexa é a tristeza
Que envolve a mente carregada e demente
Depois do resultado inacreditável que vi.
Faltou magia, a raça brasileira gigantesca.
Desse jeito não há canção, morre a poesia
E canta-se uma torpe e enfadada elegia.

Um francês roubou o sonho brasileiro,
Mas ele também tinha direito ao sonho.
A esperança de qualquer outra nação
São seus heróis que buscam a vitória
E ela construirá a nova esperança e vida.
Mas o nosso encanto amortalhado foi-se
Rumo a quem se deu por inteiro a luta.

Ps: No final das contas, a Itália
consagrou-se tetracampeã.
Ela também sonhou com isso.

 
Depois do primeiro título mundial da Espanha, lembrei da elegia que fiz quando o Brasil perdeu para a França, na Copa do Mundo de 2006. Uma derrota merecida depois de um jogo pelego, sem raça, sem qualidade. Hoje a Espanha se deu mais em campo que a Holanda, que não deixou por menos durante uma partida, dura, e repleta de vontade por parte de ambas as seleções européias.

Polvo Paul, sucesso na copa, acertou todas.
Torci muito pelas seleções latino-americanas, mas em solo sul-africano não deu. Apenas o Uruguai chegou mais perto. O Polvo Paul acertou. Agora, resta a nós, latino-americanos aguardar a Copa do Mundo de 2014, no Brasil. Até lá o Igor Vinícius Maquiné Quaresma, meu filho estará com sete anos. Eu estarei com mais de 30, caminhando para 31 anos, e a Juliana perto dos 30. Digo isso porque o sentimento é de esperança por dias melhores. Necessário mesmo é manter a vigilância sobre os poderes públicos para que cumpram com seus deveres, na distribuição de direitos.

sábado, 10 de julho de 2010

Estática



.: Passava da hora de voltar. Aquele coração de pedra silenciou Machado, perturbado pela falta de atenção daquela dama, linda e austera, fascinante.

Sem resposta para suas súplicas, Machado desistiu de Carlota e a deixou como a encontrou naquele dia, na praça, estática, sob sol do meio dia.


Microconto
Emerson Quaresma

Nossas mulheres



Movimento de Mulheres do Amazonas

As mulheres de nossas vidas são a representação real do poder fazer, construir e organizar o mundo. Mulheres como Juliana Maquiné (minha esposa), Osvaldina Castro Quaresma (minha mãe), Ivânia Vieira (eterna professora), Luziane Figueiredo (colega de profissão), Socorro Papoula (ativista social), só para citar algumas, são exemplos reais de mulheres com capacidade de gestão na família, no trabalho e na vida.

Desvinculadas de bandeiras partidárias, livres de qualquer pressão dos poderes constituídos, fazem valer a idéia de que é sim possível um mundo mais paritário. Sem as algemas do egocentrismo político dão a demonstração de que vale a pena a luta coletiva, e que é injusto o sistema de sociedade imposto aos homens e mulheres do nosso continente.

Besta somos nós homens, minoria nos censos demográficos brasileiros das últimas décadas, que ainda insistimos em nos manter no poder, no comando das sociedades. Digo isso porque acredito que com elas, ao lado delas, podemos ser melhor na aplicação dos direitos e deveres, na distribuição de renda e na construção e efetivação de políticas públicas.

Infelizmente, a luta delas para chegarem aos postos do alto escalão, e organizarem melhor nossas vidas, ainda é abafada pelo sistema milenar de homens que pregam sua hegemonia. A dificuldade deve estar ainda no pouco tempo da historia que demos a elas para trabalharem por isso. Pior para a humanidade que precisa esperar pelo cuidado e requinte feminino.

Bom que aprendemos muito com essa com essa construção de igualdade e fraternidade entre os gêneros.



PS: Esse poste nasceu depois da leitura do texto “NO AMAZONAS, AS ELEITORAS É QUEM MANDAM”, publicado no Blog do Arnoldo (http://arnoldosantos.blogspot.com), do meu amigo jornalista Arnoldo Santos.

Copa da Alemanha

Brasil x Gana, 27 de junho de 2006

Ah pelota viva bela que me esfria as entranhas.
É a emoção aflorada de um filho da pátria mãe
Ao ouvir, eu estático, a canção desta terra amada
Cantada poeticamente por milhões de vozes tupis.

Mas são vinte e dois pés contras outros 22
Que correrão em busca de um ser mágico,
A obsessão dos heróis de nações apaixonadas.
E ela rola na terra santa gerando esperanças.

É força, raça e vontade de ser dono do vôo
Descobrindo os caminhos mil, face a face.
E surge um drible e a pelota que rola é nossa
E o herói é nosso, o momento é nosso: Gol!

A terra santa se transforma num fronte pacífico
Revestido de histórias tantas e glórias vindouras.
A Alemanha é o lugar destas muitas sagas
E o Brasil enfrenta os Estrelas Negras da África.

O coração palpita e a batalha continua vã, santa,
Doutrinária na filosofia popular: vencer ou vencer?
E os heróis cumprem seus papéis de vitoriosos
Balançando a rede com o ser mágico: a bola.
Ronaldo, Adriano, Zé Roberto e a equipe
Porque a seleção é isso: um sistema que funciona
E emociona os brasileiros.

Ps: O Brasil não passou da fase seguinte.


Roranaldo na Copa do Mundo da Alemanha, em 2006.


O poema que posto nesse dia de hoje, quando assito pela Tv a partida entre Alemanha e Uruguai, nasceu também durante uma copa do mundo, a da Alemanha. Nesse dia de 2006 o Brasil disputou contra uma seleção africana e venceu. Infelizmente, da mesma forma como ocorreru na Copa da África do Sul nossa seleção não conquistou o hexa. Sobre o poema, digo que foi um dos poucos que escrevi sobre futebol, acho, até porque acredito em surpresas. Quem sabe a inspiração venha daqui a pouco, ou somente na Copa do Mundo de 2014, que será realizada no Brasil. Quem sabe, ao ver os poderes públicos conseguindo atender as exigências da Fifa, e desta forma confirmarem Manaus com sub-sede, o poeta acorde novamente e da ponta se sua pena extraia uma nova bela canção sobre a paixão nacional, o futebol..

Suspiro



.: O suspiro final de Carvalho, e as lágrimas e o suor de Tália se confundiram com a poeira daquele chão ressequido. Uma batalha de pele e borracha.

Não houve vencedor. Houve sim, dois perdedores de paixões diferentes que se traiam e o mesmo faziam com aqueles que os esperavam para almoçar.

Microconto
Emerson Quaresma

quarta-feira, 7 de julho de 2010

A fuga

Mercedes queria o dr. Marcos, mas não sabia usar do segredo da sedução. Ela também tinha uma queda impetuosa pelo enfermeiro Fernando.
No corredor do hospital, calmaria. Fernando surge da enfermaria 9, e deseja com o olhar as curvas de Mercedes. Ela, por sua vez, não percebe.
Mais jovem que a psicóloga, Fernando é insistente, e com prontuário nas mãos se aproxima. Ela suspira com as mãos dele na sua cintura.
É hora do descanso, e dr. Marcos tem um segredo. Ele o confidencia ao almoxarife, que deixa o setor para fumar e pigarrear aos risos do segredo.
Fernando também tinha o almoxarifado como um bom lugar para relaxar. E é lá que a conversa de baixo volume com Marcos parece uma trama.
O convercê dos dois é quebrado pelo ranger da porta que é aberta e fechada segundos depois. A fraca luz se apaga. Os dois são empurrados levemente.
Ao chão, em paralelo, na penumbra da sala, seus botões eram desatados. Calados se deixaram levar pela ferocidade das mãos e boca delicadas.
Noutro plantão dr. Marcos estava de folga. Fernando também. Mercedes sentiu uma mão forte na sua cintura. Não, não era a do enfermeiro.
Surpresa viu que a mão direita era do almoxarife, homem abrutalhado e mais másculo que os dois desejos de Mercedes. Tinha algo na mão esquerda.
Com o polegar pressionou o botão de play. Um vídeo, com luz especial para filmagens no escuro, começou a rodar na tela daquele celular moderno.
Ela não se intimidou com o almoxarife. Falou ao seu ouvido. Sem pressa ele deixou o corredor do hospital com sorriso largo, e desapareceu.
A cena se repete: a porta do almoxarifado é aberta. Desta vez não tem nenhum médico e nenhum enfermeiro dentro daquela sala escura.
Uma mão pesada desce da nuca em direção a abertura da bata de Mercedes. Um forte suspiro é silenciado logo em seguida pela outra mão.
Desnuda, a psicóloga se entrega ao almoxarife. Desta vez ela é a presa. Queria gritar, mas não podia. Então mordeu a mão do outro sem compaixão.
Noutro dia o dr. Marcos a procurou, mas não a encontrava. Fernando perguntou por ela, mas ninguém sabia do paradeiro da psicóloga Mercedes.
Não souberam tão cedo que, o que ela queria tinha encontrado como almoxarife. Os dois partiram mais para o norte, e não deixaram endereço.

Miniconto
Emerson Quaresma

terça-feira, 29 de junho de 2010

Dois segredos

Batista gritava muito olhando aquele terreno baldio, em plena madrugada. De onde Alba estava, parecia que Batista era próximo.
Apesar disso, Alba não conseguia entender o que o homem maltrapilho falava em frases desconexas, mas cheias de vigor, até mesmo arrogantes.
A mulher resolveu abrir a janela do quarto. Puxou o cortinado floreado. Sem muita pressa abriu o lado esquerdo da janela de madeira, fria.
O som do grito de Batista pareceu soar no pé do ouvido de Alba. Ela olhou para o terreno baldio e viu a silhueta daquele homem perturbador.
Lembrou do sonho de outra noite em que encontrava o ser amado. Ele a seduzia e a acariciava. Dormindo, Alba sentiu o vapor dos seus orgasmos.
Quis ver o maltrapilho da madrugada como o sujeito que lhe roubava o coração. Desceu as escadas à flor da pele. Correu até ele, perdida.
Desnuda do colo à cintura, e ansiosa pelas mãos ásperas do amado indivisível, não se deu conta do que ele falava ao vento, e se entregou.
Os raios do sol incomodavam os olhos dormidos de Alba. Eles invadiam o quarto dela com o vento que entrava pela janela aberta na madrugada.
Sem entender onde estava até olhar o cortinado floreado de primavera, puxou pela memória o ocorrido, até ouvir às 8h o mesmo grito das 3h.
Depois de olhar pela janela novamente, quis desta vez que o que viveu sob a brisa não passasse de um sonho lindo de mulher, rainha amada.
Soube que Batista era um lunático em crise, e que ele, ao gritar, pedia aos céus uma bela paixão, pelo seu silêncio sobre a verdade da vida.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Flor de lótus

(para Ivânia Vieira)

Tu que nasce todas as manhãs para o sol
E caminhas com tuas convicções utópicas
Abraça neste instante a ti mesma, flor de lótus.

Teus olhos brilham de um amor diferente.
De onde estou vejo as cores da tua íris
Que reluz tua face de mãe guerreira.

Introspectiva, busca outros mundos,
Tu que gritas ao mundo teus sonhos
Com notas de uma crítica que é só tua.

Vejo um olhar diferente daquele que conheci
Em outros tempos mais jovem e tímido
Nas periferias das nossas almas de luta

Logo tu, flor de lótus, que plantas a esperança
No coração e no suor de meninos e meninas,
Estás assim. Mas é de se entender teu amor.
Compenetrada na dor do próprio íntimo
Teus amigos te agradam com o melhor
Que cada um tem a te oferecer flor de lótus

Eu – pobre poeta jardineiro –, amiga e mãe,
Apenas rego tuas raízes com a poesia
De uma partida inesperada.


Manaus, fevereiro de 2007


Emerson Quaresma

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Mundo camuflado

Negado o pão ao menino ingênuo
Essa criança, que vive na rua, comprova
O quanto esse mundo é pequeno,
Menor até que a pálida lua nova,
Porém, gigante em desigualdade.

O choro do menino insiste em lamentar
A pedir o que de direito lhe foi negado.
Para ele, amanhã é mais um dia
Como aqueles tantos outros passados
De pés descalços pelas ruas
No ensinamento do seu mundo camuflado.

Essa criança caminha e caminha,
Não os passos da falsa dignidade,
Mas sim a temerosos largos passos,
Rumo às fronteiras do seu exílio,
Com medo, sem medo talvez,
Mas sem certezas, é certo,
Como as de quem lhe determinam
As incertezas do seu destino.

 
Manaus, 2005

terça-feira, 8 de junho de 2010

Cantiga singela

Já que você voltará um dia
estarei sentado na minha cadeira
no meu asteróide B-612 para assistir
48 vezes o Pôr do Sol.

Não guardarei melancolia,
alimentarei ternuras e saudades.
E ao chegar da noite que empurra o dia
acenderei algumas estrelas
para alumiarem o nosso caminho.

E se elas não forem suficientes,
pedirei um favor ao vagalume
para que com seu lume
faça eu enxergar os seus olhos
tristes de escuridão, mas belos
com pétalas claras de carmim singelo.

Eu aqui, no meu pequeno planeta
a perambular o tosco pensamento
com a velocidade de um cometa
que vejo agora nesse momento.

Quero esquecer o espinho da rosa
que glamurosa, mas sem querer,
arranhou em hora raivosa
um pedacinho do meu ser.

Aguardarei em tão no sonho
acordado e viajando na janela
a resposta que espero dela
se é amor a ela que proponho.

Manaus 2006

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Guerra fria na pré-campanha começa a esquentar

A pouco mais de 30 dias da abertura das porteiras para campanha das eleições gerais de outubro, a guerra fria entre os principais candidatos começou a baixar o nível, antes mesmo de iniciarem os programas gratuitos na TV e no rádio. O senador Alfredo Nascimento (PR), que vinha vendendo aos quatro ventos que é o candidato do presidente Lula, e esquece que milhares de cidadãos ainda têm noção do solo em que pisam, começou a perceber fissuras nas paredes de concreto do seu plano de vencer a disputa sem disputa.

Por isso, Alfredo que foi eleito senador em 2006, usou a tribuna do Senado pela primeira apenas esse ano, no mês de maio, somente para dizer que o Amazonas está abandonado e que a saúde pública de Manaus é o verdadeiro caos (como se ninguém soubesse disso). Como nunca tinha feito antes, enquanto ministro dos Transportes, passou a procurar os holofotes para atacar sob nuvens de fumaça seu principal adversário, o governador Omar Aziz (PMN).

Como Alfredo, o ex-prefeito Serafim Corrêa (PSB), seu candidato a vice-governador, também não mede esforços para criticar a administração do adversário, e como bom economista, vem contabilizando problemas, principalmente no interior, até porque, ao falar de Manaus correrá o risco de atirar no próprio pé.

A campanha pré-eleitoral parecia diplomática até os 15 minutos do primeiro tempo, quando o prefeito de Manaus, Amazonino Mendes (PTB), se sentiu contrariado com a decisão do ex-ministro dos Transportes de anunciar como seu vice Serafim Corrêa, desafeto de primeira linha do Negão. Aquele que o derrotou em 2004, levando na mão uma conta de IPTU atrasada.

Além de Amazonino, a decisão unilateral do senador Alfredo irritou também membros do PT, que tinham a promessa dele de fazer essa escolha somente depois do PT de Lula decidir com quem caminharia no Amazonas. E não o fez. Passou a perna do PT mais uma vez, como o fez em outras eleições, quando a legenda dos trabalhadores tentou alçar vôos majoritários.

A “força” que Alfredo ganharia com o Sarafa, na capital, deverá o enfraquecer no interior com o desligamento de Amazonino da sua chapa. O Negão ainda tem muita simpatia com os irmãos do interior por conta da sua política assistencialista de distribuição de moto-serra. O inferno astral do ex-ministro se agravou depois que o ex-governador Eduardo Braga (PMDB) voltou das férias, disposto a transferir seus 90% de preferência eleitoral para Omar Aziz.

Custa ainda ao senador Alfredo perceber que a “soma” de votos na capital com Serafim pode causar subtração, já que muitos eleitores do ex-prefeito não engolem o protagonista (ou antagonista) do Expresso e do “social levado a sério” que, em dois mandatos, “trocou o cimento pelo sentimento”.

Sobre esse último sentimento, não falo da boca pra fora. Foi uma lástima expressada na blogesfera por cidadãos que acreditavam na candidatura do Serafim como alternativa às outras postas até o momento.

O comportamento do senador nos últimos dias nos revela um tom de desespero no homem que acreditava bastar dizer para o povo que é o candidato do presidente Lula, e desta forma homologar uma candidatura, como num toque de mágica.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Transparência sob o silêncio da sociedade


 Já faz algum tempo da minha inútil existência de profissional da comunicação social, que ouço de presidentes da Câmara Municipal de Manaus (CMM) a palavra Transparência. Com o advento da internet, a prestação de contas do dinheiro público, em tempo real, torna-se cada vez mais possível. Mas, como eu disse, antes do vereador Luiz Alberto Carijó (PTB), o ex-presidente do Legislativo Municipal, vereador Leonel Feitoza (PSDB), já falava em Transparência dos atos e das contas, mas nunca encontrou, ou nunca procurou de verdade a fórmula para tornar isso realidade.

A Transparência para os homens públicos brasileiros parece ser algo muito difícil. E isso nos leva a subentender que “há algo de podre no reino da Dinamarca”, e que por isso, o nosso “Porto de Lenha nunca será Liverpool”. Essa cruel realidade é reforçada cada vez mais para o bem de alguns poucos, principalmente por conta do olhar desatendo da sociedade, responsável pelo credenciamento a cada quatro anos dos representantes no Congresso Nacional, Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais.

Personagem emblemático da história legislativa amazonense, o presidente da Assembleia Legislativa do Estado (ALE), deputado Belarmino Lins (PMDB), chegou a dizer em entrevista concedia para mim que a Transparência do Poder estava na publicação dos atos no Diário Oficial do Estado (DOE). Depois de comer muito abiu, e silenciar para as almas nas segundas-feiras, Belão, como é chamado pelos colegas, avançou pouco, mas avançou com a prestação de contas no site da instituição.

Uma coisa é certa. Falta clareza sobre como e em que é usado o farto dinheiro público que é destinado aos legislativos por meio dos orçamentos dos poderes executivos. Mas, não somente as Casas de Leis. É preciso também Transparência nos Executivos. A Presidência da República conseguiu, ainda que de forma duvidosa, atender a determinação da Controladoria Geral da União (CGU).

Em Manaus, essa prática aconteceu com Serafim Corrêa (PSB), no que pese a prestação de contas, ainda que numa administração de ações desastrosas, na qual faltou qualidade nos investimentos. Com Amazonino Mendes (PTB), com seu pavor a tecnologia devido a um desastroso debate eleitoral numa TV local, simplesmente deu um basta na tentativa de Transparência do seu antecessor. A vantagem do Estado sobre a Prefeitura de Manaus é que esse conceito nunca ecoou, e por isso mesmo ficou.

Resta agora esperar pulso firme da CGU, na cobrança do cumprimento da Lei da Transparência (Lei Complementar No 131/2009), que prevê a divulgação em tempo real dos gastos por meio da Internet, pela União, os estados e os municípios com mais de 100 mil habitantes. E com muita fé, creio que o presidente da CMM conseguirá efetivar o que prometeu, e que alguma alma tocará no coração do Belão para deixar mais claro os gastos da ALE.

Infelizmente, vamos esperar que isso tudo aconteça sob o silêncio da sociedade, constituída por pessoas cada vez mais conformadas com a falta do enfretamento dos poderes constituídos (leia-se TJ, STJ, STF) contra os tirocínios da corrupção.

Por Emerson Quaresma
Colaborou: Roberto Souza, cientista politico

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Politicagem

Posta a verdade à mesa
Há ainda muito em alcovas
Turbilhão de enganos
Escárnios santos da maldade
Da estação errada e atrevida

Minha amiga multifacetada
No seu íntimo pântano trapaceiro
Se permite à boca do homem
Mas, não num livro ordeiro
Muito menos às folhas da eternidade.

Ela escapa do poço escuro de lama
Meticuloso e maquiavélico
E perde-se na sonoridade
Vã, vasta, vil, vultosa, vaga
Para sair omitidamente mentirosa.

E das suas tribunas de direito
Ecoa como verdade.

Por Emerson Quaresma


PS: Um poema sobre um sentimento político da minha adolescência, mas que ainda revela a realidade das tribunas e tribunais.

História e cultura afro-brasileira na sala de aula

O Brasil demorou muito para pedir desculpas a comunidade negra por conta de uma história que desmoraliza qualquer nação. Mas, somente pegar os holofotes para se desculpar não resolve uma dívida histórica do País, que chegou aonde chegou, graças a desgraça de muitos irmãos negros, migrantes europeus e nossos indígenas (dizimados pela arrogância do colonizador).

Os passos de reconhecimento da cultura afro-brasileira foram dados nesse mesmo governo que já pediu perdão pelos erros do nosso passado. Mas, esse mesmo governo precisa adotar de uma vez por todas, essa consciência de nação de diversidade desde a sala de aula. Dispositivos já existem para uma educação transversal, por meio da qual os nossos educadores podem ensinar além das vírgulas, o hiato que se tem nos livros sobre a real história e cultura dos africanos.

Aos amigos internautas informo que a importância da história e da cultura africana e afro-brasileira na sala de aula será debatida amanhã, a partir das 8h, no 1º Seminário Personalidades Negras do Estado do Amazonas. O encontro será realizado no auditório da Semed, localizado na rua Desembargador Mário Ypiranga Monteiro, 2549, na Vila Amazonas, bairro Nossa Senhora das Graças, em frente ao Detran-AM.

A representante do Ministério da Educação e Cultura (MEC), professora Joana Carmen, ativista social do movimento negro de Belém (PA), ministrará a palestra sobre a alteração sobre a Lei N 10.639/2003, sancionada pelo presidente da República, que torna obrigatória, nos ensinos fundamental e médio, aulas sobre História e Cultura Afro-Brasileira, a serem ministradas em todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística, Literatura e Historia do Brasil.

Às 16h serão entregues o Prêmio Personalidade Negra do Estado do Amazonas as pessoas que contribuíram com a causa afro-brasileira. O prêmio lembra personalidades negras do Amazonas como Nestor Nascimento, Mãe Zumira, Mãe Emilia.

Por Emerson Quaresma

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